quinta-feira, 23 de maio de 2013

Hora do almoço

Ele parou o seu veículo perto da guia num espaço que para a maioria dos motoristas seria proibido. Não para ele. O seu carro tinha o nome de um super mercado conhecido numa placa de alumínio presa à grade. Uma propaganda que ele nunca se incomodou de tirar.
Enquanto subia na calçada, notou que o cadarço da sua bota estava desamarrado. Abaixou e amarrou-o. O outro pé calçado com um mocassim leve não precisava. Ao se levantar, ajeitou o casaco marrom de veludo sobreposto ao colete laranja e a camisa cinza. Trajava uma calça de brim, também cinza, que havia escurecido onde fazia dobras. 
Se aproximou da vitrine do restaurante, onde, num canto do vidro, era exibido o cardápio. Cruzou os braços, se curvou um pouco para ler e franziu a testa. Murmurou alguma coisa, coçou o queixo barbudo e balançou a cabeça. Ao se afastar dois passos, olhou para cima e leu: "Tutano de Cordeiro Restaurante".
Descendo a rua e virando à direita, a rua estava interditada por uma feira que começava a se desfazer. Já passava de uma da tarde, e ele sabia que esse era o melhor momento. Parou novamente o seu carrinho de super mercado perto do meio-fio, e se abaixou para começar a apanhar a sua dieta vegetariana de fim de feira.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Ela disse "não"...


Olhando ao redor

Fragilidade talvez seja renunciar a força que é oferecida.
Egoísmo talvez seja se contentar consigo mesmo.
Tudo e todos a nossa volta são para o bem e para o mal.
A decoração é obrigatória.
O arranjo é pessoal.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Na luz


De passagem

Só preciso passar
De passagem em todo lugar
Se algo eu disser e machucar,
Minha bala inanimada, 
Má intenção perdida
Também vai passar

Vento vem embalar
Ele tem peso para vir apagar
A marca que fiz pra lembrar
Nos dias que vivi
A quem eu atingi
Eu, sim, vou passar

Nenhuma vida é fraca
No ato é que ela perdura
Um ato, uma assinatura
De fato, uma vida curta
Depois d'eterna sepultura,
Então, a memória furta

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Levando vantagem

O que eu faço com essa merda?
Papel higiênico sem ser passado a limpo.
O que eu faço com o meu xingamento?
Dirigido aos surdos de ouvido rico.
O que eu faço com a palavra ao vento?
Rubrica branco no branco do político.

O que faz o povo de joelhos?
O homem de terno está de pé.
O que vê a tontura com fome?
Alucinação num cavalo de fé.
O que vê o homem de terno?
Tudo o que tem, estorva o que é.

E tem gente que é um pouco menos.
E tem gente que fala demais.
Numa terra onde a regra é depois,
Não se anda entre os iguais,
Ninguém corta fila uma vez,
Na minha vez, levo um a mais . 


Talvez

talvez eu devesse beber mais chá do que vinho
talvez eu devesse absorver apenas amor de quem me ama
talvez eu devesse ouvir mais New Age 
talvez menos opiniões para preservar a personalidade 
talvez mais conversas e menos gente
talvez defesa sim, munição não
amor que não sufoque desejos
respeito à criança em mim
o momento do animal na sua hora
a arte
a natureza
o indivíduo
Para que eu possa viver mais quarenta anos.